A relação entre a música erudita e a música popular
é uma questão polêmica (principalmente o valor estético de cada uma).
Os adeptos da música erudita reclamam que este gênero constitui arte
(e, por isso é menos vulgarizada) enquanto que a música popular é mero
entretenimento (o que implica um público mais numeroso). Contudo, muitas
peças musicais da chamada música pop, do rock
ou outro gênero denominado "ligeiro" são, reconhecidamente, peças de
elevado valor artístico (e, curiosamente, chamadas também de
"clássicos", como a música dos Beatles, Genesis, de Jacques Brel, Edith Piaf e Billie Holiday,
enquanto que algumas peças de música erudita se tornam datadas,
consideradas de mau gosto (consoante as épocas, podendo mais tarde ser
recuperadas, ou não) ou, mesmo, tornarem-se populares, ao serem
incluídas em filmes
ou anúncios publicitários, por exemplo. Quase toda a gente conhece e
chega a trautear algumas melodias de música erudita, mesmo sem saber
quem foi o compositor. É comum, por exemplo, associar árias de ópera com
momentos desportivos (no futebol, por exemplo, em que a ária "Nessun
dorma" da Turandot é explorada até à exaustão).
Pode-se argumentar que a música erudita, em grande parte, mas nem
sempre, tem como característica uma maior complexidade. Mais
especificamente, a música erudita envolve um maior número de modulações (mudança da tónica),
recorre menos à repetição de trechos substanciais da peça musical (na
música popular o refrão é comum), além de recorrer a um uso mais vasto
das frases musicais, que não são limitadas por uma extensão conveniente
para a sua popularidade entre o público (ou seja, que permita à música
"entrar no ouvido" ou seja, na memória).
Na música erudita, o minimalismo vai contra estas tendências que se
acabaram de aplicar. No entanto, é normal que a música erudita permita a
execução de obras mais vastas em termos de duração (variando de meia
hora a três horas), usualmente divididas em partes mais pequenas (os
"movimentos"). Também aqui existem excepções: as miniaturas, as
bagatelas e as canções (como as de Schubert).
A música popular pode no entanto ser bastante complexa em diferentes dimensões. O jazz
pode fazer uso de uma complexidade rítmica que não acontece numa larga
maioria de obras clássicas. A música popular pode recorrer também a acordes
complexos que destoariam (ou não, mas, em todo o caso são pouco usados)
numa peça erudita. A verdade é que aquilo a que se chama de música
erudita é um campo de uma vastidão enorme, difícil de espartilhar numa
ou noutra regra.
A escolha dos instrumentos utilizados para a execução das obras
também pode diferir muito. No início, a música erudita apenas se
utilizou de instrumentos acústicos, não elétricos, e que foram, na sua
maioria, inventados antes de meados do século XIX,
ou muito antes disso. Consistem, essencialmente, nos instrumentos que
fazem parte de uma orquestra, em conjunto com alguns instrumentos
solistas (o piano, a harpa, o órgão…). Na música popular (pelo menos na moderna), a guitarra eléctrica
tem um grande protagonismo, enquanto que sua participação só passou a
ser considerada anos depois por parte dos compositores contemporâneos. A
partir daí, os dois gêneros vem experimentando instrumentos eletrônicos
e elétricos (como o sintetizador, a banda magnética…)
bem como instrumentos de outras culturas até agora afastadas da
tradição musical ocidental (como o conjunto de instrumentos de percussão orientais chamados de gamelan).
Outra especulação interessante é saber se as peças de música popular
continuarão a ser ouvidas, ao longo do tempo, permanecendo tanto quanto
as peças de música erudita. Enquanto que estas permaneciam devido à sua
natureza escrita, a música popular (bem como as interpretações
individuais das obras clássicas) tem hoje à sua disposição os registros
gravados em suporte de qualidade. Se é certo que algumas peças de música
popular que eram sucessos enormes há poucos anos atrás já estão
praticamente esquecidos, a verdade é que também muitas peças musicais
ditas eruditas deixam de fazer parte do repertório das orquestras,
reaparecendo pontualmente, quando algum intérprete as "descobre". Os
adeptos da música erudita podem acreditar que o seu gênero tende mais
para a intemporalidade. No entanto, muitos artistas populares poderão
permanecer e ganhar o estatuto de músicos de culto. Ainda que quando
alguém ouve música popular relativamente antiga (de algumas décadas
atrás) se utilize mais a expressão "nostalgia" por algo passado, que não
pertence ao presente; sentimento que raramente se encontra entre os
adeptos da música erudita. Só o tempo poderá demonstrar qual a música
que permanecerá. Erudita ou popular, a qualidade de cada uma estará
sempre sujeita à avaliação subjectiva dos ouvintes do futuro.
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